Bêbado, drogado. Se minhas costas não doessem eu dormiria no chão todo dia. Colchão é só o chão com uma sílaba antes. Uma sílaba que amacia a dureza e esquenta... o frio. Bobagem pensar que é algo mais. O colchão é um conforto pra solidão. A solidão de um desejo que não se realiza, de uma ação reprimida pela timidez dum corpo. Dum copo. Que devia fazer o que não faz. Ou eu não faço o que devia fazer. Ou ele também não. Ninguém faz porra nenhuma aqui. Um cão de rua chega quieto. Talvez eu seja que nem um vira-lata, venho me aproximando devagar, peço com os olhos, doido pra alguém passar a mão na minha cabeça e me dar de comer. Mas eu não sei falar. Sei não. Sou meio bestinha também. Mas eu sempre caço uma caminha, nem que seja um tapete encardido escrito "bem-vindo" na porta de uma casa. Porque o chão dói. Se ninguém me acha e me leva, eu fico lá. Com esse olho pidão de sempre. Eu só queria um dono. Se alguém me entende, eu lato. Mas não com au-au, essa onomatopeia maldita que inventaram pra representar um latido. No dia em que um cão latir desse jeito ele não será mais um cão. Mas eu não lato assim. Meu latido é mais fundo, fica dentro, no coração.
Mas na pior das hipóteses eu uivo pra lua.
Conrado Miguel
1 Comentário(s):
E a pergunta que não quer calar... QUEM É CONRADO MIGUEL? Seu alter ego literário? Você sempre posta esses contos e eu nunca sei de quem é...
Suzi
http://emyhouseplus.wordpress.com/
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